Por Fernando Duarte
No Brasil, falar de política em ambientes corporativos costuma ser um tabu. A maioria de nós aprendeu a olhar para o cenário público com um misto de fadiga e desconfiança. Afinal, como extrair algo de bom de um sistema que parece, tantas vezes, corrompido?
No entanto, como mentor de líderes e estrategista de gestão, aprendi que a liderança não é um cargo, mas um fenômeno de ressonância. E é impossível ignorar o que está acontecendo agora. O jovem Nikolas Ferreira realizou algo histórico recentemente, e independentemente de preferências ideológicas, há uma lição de “Liderança Virtuosa” ali que o mundo empresarial precisa decifrar.
A Liderança não se fabrica, ela se revela
O que torna um político em um mito ou uma referência absoluta para milhões? A resposta não está no marketing digital, mas na coerência. Nikolas utiliza a história e modelos de valor para criar uma marca que é, acima de tudo, autêntica.
Isso me remete a uma série de artigos que escrevi para uma revista do cenário político há dez anos. Naquela época, eu já alertava que a política precisava se voltar urgentemente para valores e princípios para superar a descrença crescente. Tentei inspirar o mundo político com as virtudes de personagens como Gandhi e Martin Luther King, que não tinham “equipes de branding” modernas, mas possuíam um mote verdadeiro.
Por conta do fenômeno Nikolas Ferreira — que personifica muito do que eu pregava naqueles textos —, decidi reescrever e atualizar esses artigos originais. Estou trazendo essa série para o meu novo blog no site da High Touch porque entendi que essa carência de líderes virtuosos não está apenas em Brasília, mas no coração das nossas empresas. O mundo está cheio de “gestores maquiados”, mas carece de líderes virtuosos.
“Ninguém dá aquilo que não tem”
Minha percepção sobre isso não nasceu em livros de administração, mas na prática. Em 2000, como voluntário na ONG Gente Nova, conheci a história de um grupo de jovens que perguntou à Madre Teresa de Calcutá o que deveriam fazer para mudar o mundo. A resposta dela foi um soco no estômago do pragmatismo:
“O mundo já está cheio de ações assistenciais. O que carecemos mesmo é de pessoas com valores. Se vocês formarem valores na juventude, todos os outros problemas serão resolvidos.”
Essa semente germinou em mim até que, no final de 2003, aceitei o convite para assumir a Diretoria de Cultura da ONG no Brasil. Na nossa primeira reunião, o Diretor Executivo, Bruno Gontijo, me fez uma pergunta simples: “Qual a missão da ONG?”. Eu respondi de imediato: “Resgatar valores na juventude”.
O que ele me disse em seguida ficou gravado na minha alma: “Ninguém dá aquilo que não tem, Fernando. Se queremos levar valores ao mundo, primeiro temos que ter esses valores em nós. Temos que viver o que pregamos.”
O que a Gestão pode aprender hoje?
Goste-se ou não do Nikolas Ferreira, ele é hoje o exemplo vivo de como o posicionamento claro e a defesa de princípios arrastam pessoas. Vimos isso materializado no último domingo, com o encerramento da Caminhada pela Liberdade.
Essa mobilização não foi um acaso estético. Ela carrega o simbolismo da Marcha sobre Washington de Martin Luther King e da Marcha do Sal de Mahatma Gandhi. Foram movimentos baseados em um mote verdadeiro. Sem autenticidade, nenhum líder conseguiria tirar milhares de pessoas de suas casas para caminhar por quilômetros.
Nos próximos artigos desta série, vou mergulhar justamente na história de Gandhi e King para mostrar como eles usaram essa “caminhada com princípios” para mudar o mundo — e como você pode aplicar isso para mudar a cultura da sua empresa.
Conclusão: A Política como Espelho da Honra
Aprendi isso em casa, aos 10 anos. Vi meu pai, Luiz Antônio, ser o vereador mais votado em Vacaria (RS), mesmo sendo o “azarão”. Mas vi também o momento em que ele decidiu abandonar a política porque se recusou a pagar o preço da corrupção para subir de cargo. Ele preferiu ser um líder virtuoso fora do cargo do que um político oco dentro dele.
A política pode inspirar a gestão? Sim, quando paramos de olhar para a briga pelo poder e passamos a olhar para as virtudes que sustentam quem não se dobra. A liderança que atrai não pode ser fabricada. Como disse o Bruno lá em 2003, ela exige que você tenha o valor dentro de si antes de tentar liderar qualquer pessoa.
Este artigo sobre a liderança que arrasta simboliza o primeiro pilar do meu método Hi Five: o Hi Dream. Ele representa o aspecto espiritual da liderança, onde a missão, o propósito e a vontade de contribuir superam qualquer estratégia puramente técnica. Sem um sonho virtuoso, não há liderança que se sustente.
Você está liderando por conveniência ou por convicção?